O Caçador de Górgonas 3001

Copyright © 2016 Igor Daniel do Nascimento

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O Caçador de Górgonas 3001 é uma obra de ficção. Nomes, lugares e ocorrências são produtos da imaginação do autor e usados de forma ficcional.

 


 

– Eu sou o cara, eu sou o cara, eu sou o cara. EU SOU O CARA!

Com um salto, me joguei do trigésimo andar do arranha-céu envidraçado e caí como um meteoro, pousando heroicamente em cima de um trem-águia (tipo um trem bala, só que voador).

Eu estava atrás da zumbi, Jessica, a Moto-Morta. Ela morreu no milênio passado, tipo 2010, em um acidente de moto. Eis que, algum ser cósmico deu uma nova vida a ela – e uma moto nova também –, desde então ela persegue pessoas que gostam da vida noturna, festas e muita curtição.

Mas por que o Caçador de Górgonas está atrás de um zumbi?

Negócios. Essa é resposta.

Meu nome é Taylor Blake. E faz dez meses que entrei para a Mythpool (organização governamental que trata de assuntos sobrenaturais e cósmicos). Tenho dezesseis anos e não sei porque isso me ajudou a conseguir esse cargo, mas o chefe disse que eu era perfeito para o serviço. Ele disse que já contratara garotos com meu perfil.

Eu tô falando da minha vida pessoal e perdendo o foco na cena, não é?

Então, voltando.

O trem-águia dobrou a esquina e pude ver mais abaixo a motociclista zumbi rodando sobre as ruas sinuosas de Deep City (antes era Munique).

– Está com dificuldades, Taylor? – disse o chefe no comunicador.

– Tô tranqüilo, sir – eu puxei minha espada, Gladiel, das costas e saltei do metrô flutuante, mergulhando no ar e lançando minha lâmina contra a moto da Moto-Morta.

E eu errei. A espada se cravou no solo, centímetros atrás do pneu traseiro do veículo da zumbi.

– Shit! – eu me estatelei no chão e rolei. Rapidamente me ergui e apanhei Gladiel, disparando como um escravo em fuga atrás de Jessica.

Eu já estava a alguns metros da moto, tipo uns dez… ok, eram uns quarenta, e a motociclista já estava chegando ao cruzamento, onde um caminhão passava na horizontal.

– Sem chance! – eu freei, girei e arremessei minha lâmina na direção da zumbi, que abaixou a cabeça, fazendo Gladiel acertar o caminhão e assim gerando uma situação bombástica.

– O que você fez? – berrou o chefe em minha orelha.

– Foi mal! Eu jurava que era um caminhão-pipa.

A Moto-Morta se fundiu às chamas e bateu um cavalo de pau, dissipando o fogo com o movimento. A garota me encarou friamente e começou a queimar seus pneus no asfalto.

– Lá vem – murmurei, e movi meu braço fazendo minha espada voar de volta para minha mão.

Eu avancei contra a zumbi e ela acelerou sem pensar duas vezes. Quando estávamos a cinco metros um do outro, eu saltei com um movimento parafuso, passei minha lâmina no pescoço da garota e rolei ao cair no chão.

Eu olhei por cima do ombro e vi a Moto-Morta perder a cabeça, enquanto seu corpo, ainda na moto, desviou para a calçada e quebrou a parede de um edifício.

– Tantos milênios e as paredes ainda quebram com essa facilidade.

– Taylor! – gritou o chefe pelo rádio.

– Oe, missão cumprida, sir…

– Olhe ao redor!

E eu olhei. Garota zumbi decapitada. Moto atravessada na parede. Caminhão devastado. Quase tudo próximo ao caminhão devastado. E uma mulher com a perna quebrada tentando sair de seu carro quebrado.

– Acho que não vou mais receber aquele aumento, né?

– Na minha sala, em uma hora!

– Mas eu tô do outro lado da cidade, chefe. Chefe? Chefe? Ah, droga, eu não sou mais o cara.

+++

– Você viu o que fez? – perguntou Lúcifer a mim.

– Qual é, chefe? Não foi intencional.

– Já ouvi isso por milênios, Taylor, vai ter que se esforçar mais para convencer o Diabo.

– Não sei mais o que dizer. Você quer que eu jure?

– Não, não, nada de envolver minha família no meio.

O anjo caído era agora responsável pela Mythpool. Longa história. Houve muitas batalhas (a década de 2020 foi insana), alguns séculos para a humanidade se adaptar. Não acabou com o capitalismo, mas deu um fim nas guerras humanas – tirando quando alguma nova raça extraterrestre invade o nosso planeta azul, tipo o restante da raça de mulheres serpentes que chamamos de górgonas. Isso até que foi bom, abriu muitas vagas de emprego.

– Okay, Taylor – Lúcifer colocou as mãos no bolso –, não te chamei aqui para te punir, já saí desse ramo.

– Então para uma promoção? De caçador para diretor…

– Não, definitivamente não. Você tem sua primeira missão que faz jus ao título da história.

– Uma górgona?

– Exatamente.

Eu abri um sorriso até a bunda. Não literalmente, isso seria péssimo para os lábios.

– E o que eu faço? – perguntei.

O anjo arqueou as sobrancelhas por um instante.

– Bem, parece que uma mulher com cabelos de cobra está aterrorizando o planeta deserto Ânodo. Ela gosta de sair de noite para capturar homens, mas não sabemos se ela mata os homens ou se ela só, sabe…

Eu não sabia, então continuei o encarando inocentemente.

– Oh, esquece. Well, sua missão é chegar até a górgona e descobrir o que ela está planejando. Se estiver com preguiça pode trazê-la aqui e nós descobrimos no seu lugar.

– Sério?

– Não, só estava brincando. Descubra seus planos e se precisar mate-a, caso contrario, traga-a para nós.

– Okay, sir – eu me virei e comecei a caminhar para o elevador.

– Espere, Caçador.

– Tem mais alguma coisa?

– Está esquecendo sua parceira nessa missão.

Eu o olhei por cima do ombro.

– Que parceira?

+++

– Kagune, por que desse nome estranho? – perguntei a minha parceira, enquanto o elevador descia lentamente da sala do chefe.

A garota aparentava ter seus dezenove anos, mas Lúcifer disse que ela já tinha mais de um milênio de vida e que só tinha essa aparência jovial porque ela é filha de um antigo anjo caído, chamado Azazel, com uma humana. Ela também era muito, muito, muito, gata – bem melhor do que aquelas garotas daqueles vídeos mágicos da internet. Era japonesa, com a pele bem clara. Tinha cabelos negros com a franja caindo pro lado esquerdo.

– Ganhei esse nome quando fui raptada por uma organização que queria salvar o mundo por meio da força bruta – ela me pareceu meio fria ao responder.

– Entendo, é como naquelas revistas em quadrinhos do milênio passado.

– Não. É mais como a Segunda Guerra Mundial.

O elevador chegou ao térreo e então saímos de dentro dele, trombando com alguns executivos engomados. Nós viramos à esquerda e fomos até o canto do andar.

– Segunda Guerra? Do cara do bigode? É que já tivemos seis até então e sempre esqueço dos grandes vilões. Tirando a Quarta Guerra, que reduziu nosso planeta ao continente europeu. Tirei dez no trabalho sobre essa guerra. Sabe, um exército de anjos contra toda humanidade, deve ter sido maneiro. Você lutou nessa?

– Como conseguiu falar tanto em tão poucos metros?

Nós atravessamos a parede falsa e adentramos na Sala de Alcubierre – lugar onde eles mandam seres com massa para qualquer ponto da galáxia em 0,2 segundos.

– Responda minha pergunta por favor – pedi, educadamente.

– Sim, eu lutei. Até que apanhei bastante e quase perdi minha asa, Kairos. No final deu tudo certo…

– Mas a população do planeta foi reduzida em noventa por cento…

– Calado – Kagune suspirou. – Só fique calado.

– Os patrulheiros estão prontos? – disse o operador da Maquina de Alcubierre.

– Sim – respondi, e nós subimos em uma plataforma verde e brilhante. – Nós vamos para Ânodo.

– Ah, sim – disse o operador. – Fica no Braço de Centauro, lugar de grande tecnologia.

– É…

– Enfim – o operado digitou coisas que até hoje não entendo em seu teclado sensível ao toque e translúcido –, boa sorte pra vocês. – Ele apertou “ok” e nós disparamos contra o céu em forma de energia escarlate.

+++

Em Ânodo…

Nós surgimos em um relampejo carmesim sobre o solo de areia avermelhada. No céu lilás, era possível se ver o satélite natural do planeta que estava bem próximo e tinha a forma de um diamante.

– Escuta – comecei –, se você tem poderes de um anjo, você pode regenerar qualquer parte do corpo? Tipo, você é imortal mesmo?

– Não se eu for desmembrada por uma arma de anti-matéria – Kagune olhou ao redor e farejou o ar.

– Detectou algo, velhinha?

– Velhinha? – rosnou ela.

– Que foi? Você me diz que tem mais de mil anos e quer que eu te chame de novinha?

– Eu detectei uma anomalia! – clamou ela.

– Sério? – levei meu punho ao punho de Gladiel às minhas costas. – Onde? Quem?

– Sim, parece que o nome dele é Taylor Blake.

– Taylor Blake é… mas… Ei!

– Tapado – suspirou a híbrida. – Vamos procurar um lugar pra ficar até de noite.

Kagune começou a caminhar para frente e eu a segui. Nós cruzamos algumas dunas e então uma casa de madeira nos foi revelada.

– De onde ele tirou madeira em um planeta deserto? – falei, e Kagune respondeu dando de ombros.

Ela começou a caminhar rumo a residência, e eu, como um cachorrinho, a segui.

Toc! Toc! Nós batemos na porta (o que é meio obvio).

– Quem é? – o som de uma voz rouca, mas que demonstrava virilidade, veio de dentro do cafofo de madeira.

– Mythpool – disse Kagune –, de Gaia, conhece?

Ela disse de Gaia, porque é o nome verdadeiro do nosso planeta. Terra é só um apelido carinhoso e não muito criativo.

Passos ecoaram lá dentro e a porta se abriu suavemente. O cara da voz rouca, mas que demonstrava virilidade, se revelou. E para nossa surpresa – mais minha do que da híbrida –, ele era humano.

– Algum problema, oficiais? – perguntou o velho, passando a mão em sua barba branca por fazer.

– Viemos atrás da górgona – disse Kagune.

– Sei – o velho estreitou os olhos. – Bem, entrem, fiquem à vontade.

– Bons modos são universais? – murmurei.

– Quieto, moleque.

Nós entramos e eu olhei ao redor. Uma mesinha de madeira, frigobar, notebook hacker, privada… privada? No meio da sala? Enfim. Parei de reparar na residência do velho e me sentei à mesa. Kagune fez o mesmo.

– O que sabe sobre a górgona? – perguntou a híbrida.

O velho nos serviu alguma coisa líquida estranha que parecia petróleo em xícaras de porcelana e se sentou conosco.

– O que eu sei é que ela só aparece de noite – respondeu ele. – Muitos dizem que gosta de capturar homens, mas parece mesmo é que ela se alimenta deles.

– Você já a viu alguma vez?

– Ontem. Enquanto voltava do Pólo de Ânodo, nossa capital, com a Benedita…

– Seu gado, suponho – falei.

– Gado?

– É. Sabe, gatinha, namorada…

– Benedita é o nome do carro.

– Ah… tá, continue a dizer aí.

– No meio do caminho – continuou ele –, enquanto passava pelo alto de algumas dunas, vi em uma planície a mulher com cabelos de cobra degolando um homem aleatório, sem importância para a trama. De repente, um cara de uniforme azul e dourado, saiu de baixo da areia e enfrentou a górgona somente com os punhos. A fera acabou batendo em retirada.

– Um cara de uniforme azul? – disse Kagune. – Seja mais especifico.

– Era meio que um colante, com uma meia mascara que cobria a metade superior do rosto dele. Mas no tórax, havia estampado uma grande cruz dourada, com o desenho de um par de asas na barra horizontal.

– Tio Miguel – falou a híbrida.

– Tio? Como assim? – perguntei.

– Não fez a lição de casa? – disse ela. – Depois de todas essas guerras na galáxia, os únicos seres divinos que sobraram foram Lúcifer e Miguel.

– Isso eu sei. Lúcifer limpou seu nome e Miguel acabou deixando o nosso Sistema Solar.

– Sim – continuou ela. – Miguel e Lúcifer são justiceiros, com ideais diferentes, mas são justiceiros. Meu tio precisava continuar com sua justiça, mesmo que pelos bastidores, então ele criou uma organização chamada Caçadores Secretos. Eles tem como missão única destruir o corpo de seres galácticos, assim como a Mythpool faz em Gaia.

– Mas eles protegem a galáxia toda?

– São andarilhos. Se há alguém a ser punido e algum desses CS estiverem por perto eles entram em ação.

– CS? Não é um jogo de…

– Eu vou te dar um soco se você disser, é sério.

– Okay, fica tranqüila e favorável aí.

Kagune suspirou e se voltou para o velho.

– Você pode nos deixar onde ocorreu esse ataque? – perguntou ela. – Mais ou menos no mesmo horário?

– Por mim tudo bem – o velho sorriu. – Pode não parecer, mas eu também sou um combatente.

– É mesmo, é?

– Ah, pode apostar.

+++

Enfim, nós nos preparamos para a caça – mais o velhote do que eu e a anjinha. Ele tirou armas, que pareciam sub-bazucas de som, de lugares bizarros da sua casa, como de debaixo da privada.

Nós fomos para a parte de trás da residência e então o velho nos apresentou Benedita.

– Wow! – foi a única coisa que consegui dizer.

Benedita era um belo de um quatro por quatro no maior estilo “carroça do Mad Max”. Todo laranja com detalhes brancos. Com aquelas cores fortes poderia ser notado de qualquer lugar do mundo, do nosso mundo, Terra, não em Ânodo.

– Agora eu sei porque ele namora o carro – murmurei.

– Entrem – disse o velho – A noite já está caindo.

– Vem cá, essa expressão não é meio terráquea? – falei, subindo em Benedita.

– As expressões daqui não são muito expressivas – respondeu o velhote.

Kagune subiu no carro.

– Aí – disse ela –, você tem nome?

– Tenho – o velho deu partida no carro. – Todos me chamavam de O Caveira no Peito.

– Maneiro – falei. – Agora sebo nas canelas, velhote!

O Caveira no Peito (demorou pra me acostumar) acelerou Benedita e nós disparamos pela areia vermelha.

Cruzamos varias dunas e saltamos por algumas também, até que finalmente… ok, pra você foi bem rápido, mas a viagem demorou alguns minutos. Finalmente, nós chegamos ao local de que o velho falara.

Ele freou batendo um drift e eu saltei do carro, puxando Gladiel das costas e aterrissando como um super-herói. Não tão super e mais pra anti-herói, mas tá valendo.

– E aí! – gritei. – Cadê você górgona?

Nada aconteceu.

Eu olhei por cima do ombro para Kagune que desceu tranquilamente de Benedita.

– Eu esperava algo mais… – algo enroscou em meu tornozelo com firmeza. – Oh Shit.

Fui puxado e caí de costas no chão. Comecei a ser arrastado rapidamente, e até tentei frear cravando minha lâmina na areia, mas meu gume de ouro prevaleceu perante os grãos avermelhados.

– Cacete alado – praguejei.

Eu ergui meu torso, ainda sendo arrastado, e golpeei com Gladiel aquilo que segurava meu tornozelo. Cortei a coisa, cessando o arrastão, e me levantei, sem tirar os olhos da areia sob meus pés.

O pedaço da coisa ficou estatelado no chão e vi que se tratava de uma cauda escamosa, como de uma cobra gigante.

– Que merda foi…

BOOM!

Uma cortina de areia se ergueu mais à minha direita, como se tivessem explodido uma dinamite no local. E de dentro da cortina, surgiu a maldita górgona.

Bem, o básico. Rostinho bonito, cabelos de serpentes amareladas. Olhos verdes, como as escamas da sua metade cobra, que começava da cintura e seguia abaixo. Ela tinha algumas tatuagens tribais azuis em seus braços, costelas e peito.

– Olá, petisco – sibilou a górgona.

– Okay – comecei. – Verde, azul e amarelo. Antigamente no meu planeta tinha um país com essas cores, sabe? Mas sei lá, não sei se é uma referência ou se isso é só uma coincidência.

A górgona silvou alto, me interrompendo e quase me ensurdecendo também. Ela balançou a metade cobra de seu corpo, tipo dança do ventre, e a cauda se transformou em um par de pernas – um belo par.

– Não precisa berrar – resmunguei. – Eu já entendi que está “naqueles dias”. Mas vamos pular o papo a lá desenho japonês e vamos “dançar” – eu girei minha espada na mão e avancei, saltando contra a criatura que expôs as presas e desviou da lâmina de Gladiel dando um passo para o lado.

Toquei meus pés na areia e a górgona logo me acertou um chute que me lançou longe.

Capotei duas vezes no solo, mas coloquei meus pés no chão e deslizei na areia, freando rapidamente e lançando Gladiel na direção da criatura.

Minha espada voou como uma flecha contra a górgona que se abaixou, fazendo minha lâmina passar por cima de sua cabeça.

A mulher de cabelos de cobra ergueu a cabeça e avançou voraz em minha direção, mas eu estendi a mão na direção de Gladiel e ela voltou como um míssil até mim, acertando a nuca da górgona e a fazendo cair de cara no chão.

Apanhei minha espada e a criatura se ergueu, saltando contra mim como uma pantera.

Eu me agachei e a górgona passou lotada sobre meu corpo.

Virei e vi a criatura rolar na areia. Ela transformou seu par de pernas de volta em uma cauda escamosa e eu saltei em um chute parafuso acertando o rosto da górgona,  atordoando-a. Golpeei em arco com minha lâmina na altura de seu pescoço, mas ela rastejou para trás, se esquivando, e me envolveu com sua cauda, me prendendo.

– O que foi? – falei. – Vai me dizer que só queria um abraço?

A criatura começou a me apertar fortemente e deduzi que nossa relação estava ficando íntima demais.

– Solta o pirralho! – Kagune apareceu, não sei da onde, e acertou uma voadora na têmpora da górgona, a lançando longe e assim me libertando de seu abraço íntimo.

A mulher-cobra capotou no solo e logo se ergueu sibilando. Minha parceria híbrida surgiu em vulto diante da criatura, socando a boca de seu estomago e a fazendo inclinar o torso para frente, liberando sangue de sua boca.

Kagune a pegou pelos cabelos de cobra e a encarou.

– Essa é a parte que você arranca minha cabeça? – silvou a górgona.

– É, essa é a parte que eu arranco sua cabeça.

Minha parceira apertou os cabelos de cobra e então… um flash azulado acendeu ao lado de Kagune e um camarada fantasiado de azul apareceu em um salto e se atracou com a anjinha, impedindo-a de decapitar a droga da górgona.

– Papagaios! – praguejei.

O cara fantasiado começou a trocar socos com Kagune até que o azulzinho acertou um chute em seu diafragma a fazendo voar para longe.

A górgona começou a fugir e o azulado disparou atrás dela – e eu disparei atrás dele.

Das costas da criatura brotaram asas de morcego e ela levantou vôo, mas o camarada azul saltou e a agarrou pela cauda. Logo em seguida, eu saltei e agarrei o azulado pela cintura, o fazendo soltar a górgona em pleno ar, a libertando para fuga.

Nós caímos na areia e nos erguemos rapidamente.

Estávamos frente a frente, e então comecei a reparar em seu traje. Colante azul, cruz dourada com asinhas…

– Kagune! É o Caçador Secreto! – bradei.

– Agora que percebeu, cabeça de vento!

Eu estendi a mão para o caçador.

– Prazer, eu sou Taylor…

O meu xará azul materializou uma lança na mão e saltou contra mim golpeando com sua arma, mas bloqueei o ataque com Gladiel e contra-ataquei com um chute martelo que ele se esquivou dando um passo para trás.

O caçador lançou seu punho em um soco e eu bloqueei com meu antebraço. Ele girou e cortou na horizontal com sua lança, mas eu saltei em uma pirueta e a lâmina da lança rasgou o vácuo, erguendo um muro de poeira atrás de mim.

Toquei meus pés no chão e tentei atravessar o peito do azulado com minha espada, mas ele aparou o meu ataque, e eu aproveitei para lhe acertar um chute cruzado na coxa que o fez cair de joelho.

Preparei-me para dar o golpe de misericórdia, porém meu xará azul me passou uma rasteira e se ergueu com um salto mortal.

Ele olhou na direção da cidade que o velhote falara e Kagune libertou sua única asa do lado esquerdo das costas, levantando vôo na direção da selva de aço.

O Caçador Secreto começou a correr atrás dela, mas o velhote surgiu com Benedita e disparou uma onda sonora com sua sub-bazuca que fez o azulão cambalear e desabar com as mãos nas orelhas.

– Mandou bem, velhote! – clamei.

– Suba logo, moleque, o efeito da arma não vai durar muito!

Eu me levantei e corri até o carro bonitão, saltando para o banco do passageiro.

– Pisa fundo, coroa!

E então ele pisou.

+++

Nós chegamos ao Pólo de Ânodo e o velho passou por um cruzamento a toda velocidade, quase acabando com nossas reles vidas.

A cidade parecia Vegas do milênio passado, só que sem as luzes, com edifícios todo de metal e quase fantasma.

– Por que é tão deserto aqui? – perguntei.

– Esse planeta inteiro é deserto.

– É, pode crê.

O velhote viril dobrou uma esquina à direita e então vimos Kagune e a górgona se digladiando no meio do ar. A mulher-cobra acertou um soco no rosto de minha parceira e ela foi lançada contra um prédio de aço, o atravessando.

– Alguma idéia? – falei.

O velho freou com um cavalo de pau.

– Ejetar!

– Como? Aaaah!

O assento onde eu estava foi lançado para o alto como um foguete contra a criatura. Eu bati o crânio contra o estomago dela e abracei sua cintura para evitar uma queda mortal.

– Minha cara está diante de um lugar que a censura não permite! – falei.

A górgona rosnou e armou suas garras, mas eu escalei seu corpo como uma aranha saltitante e montei em suas costas.

– Criança maldita! – grunhiu a criatura, colérica e se debatendo

– Isso é nome de filme de terror! – eu saquei Gladiel e, sem piedade, cortei fora sua asa esquerda de morcego.

A górgona rugiu de dor e começou a cair do ar pausadamente, já que tentava desacelerar a queda batendo sua asa restante.

– Adeus! – eu chutei as costas da criatura com os dois pés, a lançando como um míssil no solo e me impulsionando em um salto contra a parede de um edifício, cravando minha lâmina no metal e me pendurado nela.

O chão se rachou sob o corpo da mulher-cobra e Kagune surgiu voando até mim.

– Eu vou te abraçar – disse ela. – Qualquer comentário sobre isso no QG, você morre.

– Okay… – eu disse, como uma garotinha assustada.

A híbrida me desceu na segurança de seus braços e nós nos aproximamos da górgona abatida.

– Morreu? – perguntei.

– Não – respondeu Kagune –, ainda ouço seus batimentos…

E nesse milésimo de segundo, o Caçador Secreto surgiu em um flash azul sobre a criatura, e a decapitou com um golpe seco de sua lança.

Ele se voltou para nós e avançou contra minha parceira, desferindo um chute parafuso que ela bloqueou com sua asa, Kairos. Mas o azulão era ágil e sagaz. Quando tocou os pés no chão, ele girou e golpeou o peito de Kagune com a palma de sua mão, a jogando contra a base de um edifício.

O Caçador girou a lança em sua mão e virou o corpo, golpeando com sua arma contra mim, mas eu bloqueei o golpe com minha espada e nós medimos forças enquanto a haste do azulado se esfregava em minha lâmina.

– Você não é de falar muito não?

Ele permaneceu calado.

– Não seja chato.

O Caçador afastou sua lança e saltou em uma voadora giratória tripla, acertando meu rosto com dois chutes e meu peito com o terceiro.

Fui lançado para trás, capotei, mas rapidamente me levantei. Porém, não fui ligeiro o suficiente.

O azulado surgiu ante a mim em um vulto, como se tivesse dobrado o tempo-espaço, e sua lança agora era um sabre prateado. Ele se preparou para tirar minha vida, mas uma pena flamejante se cravou no antebraço que segurava a lâmina, e chamas azuis desintegraram mais da metade de seu braço – pena que fora lançada da asa de Kagune.

Era a oportunidade que eu precisava.

Golpeei reto com Gladiel e o Caçador colocou seu outro antebraço à frente do peito, fazendo minha lâmina atravessá-lo, mas impedindo que minha espada chegasse ao seu destino.

– Não seja por isso! – clamei.

Eu saltei e acertei a base do punho de Gladiel com um chute, empurrando minha espada por dentro do braço do azulado e enfim atravessando o seu peito com minha lâmina de ouro.

O Caçador cambaleou e tossiu sangue. Ele deu dois passos para trás e então desabou no solo.

Gladiel voou de volta para minha mão e eu a prendi às costas.

– Alguém tem um chá de camomila aí? – falei, relaxando os ombros.

+++

É, isso é tudo pessoal. Fechem o e-book. Saiam do leitor de PDF. Vão checar suas redes sociais, ver quem ter mais curtidas, contribuir para um mundo mais narcisista. Eu não sei o que vão fazer agora, mas vão, façam. E façam bem, porque, se não forem fazer bem, é melhor ficarem vegetando aí nessa poltrona.

Okay, mentira, tem mais uma cena.

Kagune e eu voltamos para Terra. Nós ativamos nosso Sinalizador Galáctico (tipo um e-mail interestelar) e um buraco de minhoca fora aberto em nossa frente. Nos despedimos do velhote, mas esquecemos de agradecê-lo pela ajuda – é a vida, né? Não dá pra lembrar de tudo. Tenho certeza que ele nem ligou. Tipo, eu ouvi uma explosão, como se tivessem disparado um tiro contra um prédio, mas nada demais.

Enfim.

Eu entrei na sala do chefe Lúcifer e coloquei a cabeça da górgona sobre sua mesa – o que acabou manchando um pouco a madeira de sangue.

– Muito bem, Taylor – disse ele. – Para sua estréia como Caçador de Górgonas, até que foi aceitável.

– É, valeu, chefe, mas – eu suspirei –, eu tô pensando em tirar férias, sabe, dar um tempo.

– Entendi, como um conto fechado – falou o anjo caído. – Acho justo.

– Justo – eu sorri. – Ouvindo de você é até uma honra.

– Não entendi a referência.

– Ah, ignore, bobagem.

– Ok – Lúcifer pousou os cotovelos na mesa. – Não quer repensar essa coisa de férias?

– Nops. Estou decidido. Quero férias grandes, longas, tipo, dois anos ou…

– Já entendi. Bastante tempo. Ok. Mas não rola nem um crossover no futuro, talvez um team-up?

– Não sei, isso já depende Daquele Acima de Todos. Mas, enquanto isso, vou estar tomando sol no Reino da Gaveta, sabe, onde ficam muitos caras míticos até segunda ordem.

– Sei, sei. Lá é bom. Fiquei um tempo lá, tipo, antes do Apocalipse, não me lembro. Enfim, pode tirar suas férias. Tome sol e coma bastante maças.

– Obrigado, chefe!

Eu me virei e saí da sala.

– E não se esqueça de agarrar os seus desejos! – gritou Lúcifer, enquanto eu seguia para o elevador, para as minhas merecidas férias.

É, agora acabou. Podem cair fora. Checar as suas mensagens, entrar no grupo da família. Vão ver alguns vídeos na internet. Só não confundam os “Tube”. É “você”, entendeu? “Você”. Nada de trocarem o você pelo nome de alguma cor primaria ou algo do tipo. Evitem a tecla X também.

Do seu amigo de baixa freqüência, mas que aparece correndo quando há dinheiro envolvido, o Caçador de Górgonas.

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