CG Data Limite – Amostra Grátis

Copyright © 2017 Igor Daniel do Nascimento


– Sai fora, Megera – eu acertei um chute no diafragma da Fúria que a lançou contra uma barraca de bijuterias baratas.

Eu virei para encarar a outra criatura do submundo e vi Tisífone surgir da janela de um casebre, avançando em vôo contra mim. Ela se aproximou velozmente, mas foi alvejada na têmpora por um tiro da escopeta de Mary, a fazendo perder o equilíbrio aéreo e passar como um pombo sem asa ao meu lado. A Fúria arrastou a cara no solo e cuspiu terra, com aquela expressão de quem comeu e não gostou.

Um pouco mais à minha esquerda, entre mim e Mary, Alecto surgiu do chão, se exibindo com suas garras de ouro em solo Tibetano.

Sim, era para eu estar em Shangri-La, mas como é um local fictício, Fobia nos deixou no Tibete, porque… bem, é o Tibete. Dito isso, devo lhe informar que o meu plano “A” fora por água abaixo – o plano “A” era descobrir onde estava Euríale, a última górgona, procurando nos arquivos de Shangri-La.

Bem, dois dias haviam se passado desde que eu chegara de minha odisséia no espaço, e as coisas na Terra estavam indo de mal a pior.

Alguns deuses gregos, liderados por Atena e Ares, estavam tocando o terror nos lugares importantes do mundo – se você é do Brasil, não se preocupe. – O mundo estava em crise, psicológica, filosófica e econômica. Em um resumo metafórico, a Terra estava passando pela puberdade, de novo.

Tenho de ressaltar que, naquele ponto, todos os seres humanos começaram a questionar suas crenças. A Igreja não tinha argumentos plausíveis para explicar aqueles caras que apareciam em carruagens voadoras e dizimavam cidades inteiras com a mesma facilidade que o Megazorde destruía os prédios de isopor nas gravações de Power Rangers.

O psicológico foi embora junto com a filosofia. A galera espirrava e achava que havia sido amaldiçoada por algum deus.

Não demorou muito para as pessoas deixarem os empregos e afundar a economia mundial.

E, além de mim, o culpado disso tudo era o medo. O medo que os humanos têm de serem julgados por tentarem ser livres.

Agora, voltando à cena de ação.

Alecto, a Fúria mais “badass” de todas, mostrou-me um sorriso sombrio, antes de dizer:

– Jason Drake, O Caçador de Górgonas.

– Já falei que isso parece nome de franquia? – resmunguei.

– Atena quer você vivo por algum motivo – continuou a criatura –, mas acho que ela não vai se importar se você for entregue com um ou dois membros faltando.

Eu fiz cara de nojo.

– Qual o problema de vocês? Querem mais acesso na Deep Web? Pervertidas.

As outras duas Fúrias se ergueram de volta para o combate. As três irmãs formaram um triangulo em volta de mim e Mary, nos cercando.

– Jason – chamou Mary.

– O que é?

– Nós já enfrentamos elas ontem e antes de ontem. Você não acha que está na hora de me deixar colocar o meu plano em prática?

Eu estreitei os olhos e inclinei a cabeça.

– Você tem um plano?

Mary suspirou e revirou os olhos, ignorando minha pergunta. Ela guardou a escopeta e puxou dois revolveres da cintura, mirando em Alecto e Tisífone.

– Corre, Jason! – gritou minha parceira.

– Porra, esse é seu grande plano?

Eu me virei e bati em retirada, mesmo indo na direção de Megera. A Fúria tentou me agarrar, mas eu saltei por cima de sua cabeça e continuei em fuga.

Entrei em um casebre à direita, corri por cima da mesa de jantar e saltei pela janela, visando chegar ao telhado do edifício na rua de baixo. Porém, enquanto meu corpo viajava em pleno ar, um vulto saltou não sei de onde e me agarrou como uma pantera.

Eu e o vulto caímos juntos na rua de baixo e nos afastamos rolando quando nos estatelamos no chão.

Levantei-me rapidamente, assim como o vulto, e então logo vi de quem se tratava.

Era Ártemis.

A divindade trajava uma armadura prateada que realçava o azul de seus olhos e o rosado de seus cabelos. Ela puxou o seu arco do ombro e o brandiu, o transformando em um bastão de prata.

– Parece que a caça virou caçador – disse ela.

– É… não – retruquei. – Isso está mais para Need For Speed Most Wanted, sendo que eu sou o cara da BMW e você é o policial chato que aparece em um Corvette Zr1 customizado.

– O quê? – a deusa franziu a testa.

– Sério isso? Mais de três mil anos de vida e ainda não jogou Most Wanted? Agora eu sei porque invejam os humanos…

– Inveja? – rosnou ela. – Nós somos superiores a vocês.

– Não, Chuck Norris é superior. Vocês só têm rostinhos bonitos e nomes épicos que usam para apelidar os astros.

– Insolente! – Ártemis avançou veloz e me golpeou com uma voadora no peito que me lançou contra o capô de um carro alguns metros atrás de mim.

Eu bati minhas costas, afundando o capô e trincando os vidros do automóvel.

– Dor define esse momento – resmunguei, antes de me erguer de volta para a batalha. Eu levei meu punho ao punho de Agni. – Tá na hora do bicho pegar.

Puxei minha espada das costas e a deusa da caça tomou uma posição de combate, parecida com o Estilo Tigre do Kung-Fu.

Transformei Agni em corrente, e com uma chicotada, enrosquei a corrente no tornozelo da divindade.

– Get over here! – eu puxei Ártemis com tudo contra mim e desferi um chute quando seu corpo se aproximou, mas, a deusa apanhou minha perna e me retirou do chão. Ela pousou, tranquilamente, no capô afundado e então me lançou, sem muito esforço, contra uma residência do outro lado da rua. Meu corpo atravessou, na verdade, arrombou uma porta de madeira, bateu as costas em um fogão e quicou, caindo de bruços em um sofá de couro.

Agni voltou ao normal e eu me levantei do sofá.

– Agora é pessoal – eu evoquei o que restou da Ira dos Caídos e revesti a lâmina de minha espada com ela, a tornando negra como carvão e fervente como magma.

Saí da residência e avancei contra Ártemis, saltando em uma voadora de dois pés que a deusa bloqueou com os antebraços cruzados em X. Toquei meus pés no chão e girei, golpeando com Agni, mas a divindade desviou dando um passo para trás.

Ártemis contra-atacou com suas unhas, aranhando meu rosto, e em seguida acertou um chute em minha barriga, me fazendo cambalear para trás.

Eu rosnei e tentei atravessar o peito da deusa com minha lâmina, mas ela inclinou o torso para o lado, se esquivando, e acertou meu rosto com um chute martelo rodado que me jogou longe na rua.

Capotei na terra do Tibete e voltei a me erguer, já perdendo a paciência.

– Jason! – A voz de Mary emanou do alto de um casebre. Eu olhei em sua direção e então ela me lançou o escudo Aegis que estava preso às suas costas.

Apanhei o escudo dourado com uma mão e o prendi no antebraço esquerdo. Os olhos da Medusa cintilaram sombriamente antes de eu voltar ao embate.

– Agora é pra valer – disse, caminhando em direção a deusa.

Ártemis investiu. Ela saltou, desferindo uma seqüencia de três chutes rápidos que bloqueei com Aegis. Ela tocou os pés no chão e eu logo acertei um chute parafuso em seu rosto. Agachei e passei uma rasteira nela, mas ela se apoiou nas mãos, erguendo uma bananeira. Com a força dos braços, a deusa saltou alto, subindo uns doze metros no ar. Ela rodou o corpo no alto, transformou seu bastão de volta em arco e puxou a corda, fazendo um flecha de luz surgir apontada para mim.

– Até mais! – disse Ártemis, antes de disparar a flecha contra mim.

Eu me escondi atrás de Aegis e quando a flecha colidiu com o ouro do escudo, uma explosão de luz e calor aconteceu. A pressão abriu uma cratera sob meus pés e aos poucos fui enterrado nos escombros.

A luz da explosão se dissipou e eu empurrei duas pedras de cima de mim. Pisquei duas vezes, antes de ver a ponta de uma flecha de luz a trinta centímetros de meu rosto.

– Desta distância a morte é certa – disse a deusa.

– É, tem razão – sim, ela tinha razão mesmo.

– Últimas palavras… – um tiro atravessou a cabeça da divindade, mas ela logo se regenerou e olhou para onde o tiro fora disparado.

Era Mary, com sua escopeta, da janela de um edifício.

– Eu sou uma deusa, garota – Ártemis sorriu. – Um tiro na cabeça não pode me deter.

– Jason! – chamou Mary, ignorando a deusa. – Lembra do meu plano?

– Bater em retirada? – falei, sem tirar os olhos da flecha.

– Não – Mary, simplesmente soltou uma granada da janela do prédio. Quando a granada ficou à altura da porta de entrada, um vulto de uma asa destroçou em vôo a tal porta, apanhou a granada em pleno ar, e agarrou Ártemis, a fazendo soltar o arco. O vulto arrastou a deusa até um casebre, atacou a divindade contra a residência e em seguida tacou a granada que explodiu a casa por completo.

E o vulto, era a híbrida Kagune, a meio humana, meio anjo.

Ela pousou suavemente, olhando a residência ruir em chamas, e então se virou para mim e se aproximou.

– Cabelo branco? – disse ela. – Quando teve tempo para pintar essa merda?

– Eu não tive – respondi, me levantando –, é só uma longa história.

– Vai ter tempo para me contar – ela olhou para a casa em chamas. – Mas não agora.

Ártemis saltou das chamas com a pele toda queimada. Ela nos encarou colérica e sua regeneração cuidou de seus ferimentos rapidamente.

– Como se sentiu sendo bem passada ao ponto? – falei.

– Uma híbrida – disse a deusa, me deixando no vácuo. – Filha de quem? Leviatã?

– Azazel – respondeu Kagune.

– E por que serve a esses mortais?

– Eu não sirvo… só faço favores.

– E em troca do que?

– Em troca da paz.

– Vocês não querem terminar essa conversa pelo Facebook? – perguntei, e as duas estreitaram os olhos para mim. – Ok, ignorem.

Kagune evocou a Ira dos Caídos e se lançou contra a deusa após sua pele se tornar negra como as sombras. Ela tentou acertar Ártemis com um soco, mas a divindade saltou sobre a cabeça da híbrida, desviando do golpe.

A deusa tocou os pés no chão e eu lancei Agni contra ela. Kagune girou com sua velocidade sobre-humana e golpeou Ártemis com o antebraço, a lançando longe, mas também a retirando do caminho de minha lâmina.

Agni se cravou no estomago da híbrida com tudo, a fazendo até tossir sangue. Já a deusa da caça capotou duas vezes na terra, antes de esfregar a cara no solo e engolir poeira marrom.

– Ô, moleque! – gritou Kagune para mim. – Vê se presta atenção e tenta não me atrapalhar!

Ela retirou minha espada de seu estomago e a jogou de volta para mim, enquanto seu ferimento regenerava.

– A culpa é sua! – eu apanhei Agni. – Você quem bateu nela no momento errado!

– Sua culpa! Você quem se intrometeu no meu combate!

– Você também fez isso comigo!

– Eu salvei sua vida!

– Não sabemos! Ela poderia errar o alvo!

– Ela é a deusa da caça, moleque de merda! Acertaria uma pulga nas costas de um cachorro a um quilometro de distância!

– Em tese, sim, mas…

BOOM! Algo caiu do céu ao nosso lado, levantando uma cortina de poeira.

– Quem é agora? – clamei.

Ouvi o barulho de metal rasgando o ar e a cortina de poeira foi dissipada com uma forte ventania que mexeu meus cabelos grisalhos.

– Eu odeio interromper, irmã, mas você estava demorando um pouco – Ares se enrijeceu ante a nós.

Como ele era? Tipo um irmão gêmeo perdido do Vin Diesel com lentes de contato azul. Além disso, o deus trajava uma armadura vermelha e preta, com a cabeça de um cão raivoso talhada no tórax. Em punho, uma grande espada decapitadora de lâmina retangular.

– Jason Drake – começou ele. – Vejo que a sura que levou não o colocou no seu devido lugar.

– Vem cá – falei. – Na última treta que te vi, seu pai foi te buscar porque você estava fazendo muita bagunça – eu precisava zoar com ele. – Ele não vai aparecer de novo, né?

– Acha que preciso de meu pai para alguma coisa?

– Aposto que pra comprar bebida alcoólica…

– Insolente! – o deus da guerra moveu sua espada para me golpear, mas Kagune saltou, me agarrou e então sumimos em um vulto.

Durante um segundo, ou até menos, nós viajamos por uma espécie de túnel negro com brilhos azulados.

Surgimos dentro de um helicóptero na rua de cima, onde vi as Fúrias pregadas no solo com as penas da asa de Kagune. Na aeronave, Mary estava de franco atirador em uma janela. Doz, o detetive que me interrogara uma vez, estava no assento ao lado do piloto.

– Esse era o meu plano – disse Mary. – Você está preso.

O helicóptero decolou rapidamente e batemos em retirada, enquanto Ares me encarava tranqüilo da rua de baixo.


O Caçador de Górgonas: Data Limite, estará à venda ainda este mês, para que você possa continuar acompanhando Jason em sua caminhada.

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